quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Depois da Angústia, Auto-Avaliação, Brilhará os Tesouros da Alma



DEPOIS DO CANTO DO GALO 

 
          Uma vez que estamos observando as figuras do texto, entendemos que este galo em nossas vidas não é literal. Diversas situações podem enquadrar-se como o cantar do galo em nossas vidas; na verdade toda crise que nos leva a perceber que não somos tudo o que pensávamos ser pode ser vista como este alarme divino. Decepções consigo mesmo por não atingir as metas, por tropeçar em áreas que já julgávamos tratadas, por esfriar espiritualmente depois de um período de avivamento interior e assim por diante. 
 
          Estabelecido o conceito genérico do que pode ser este galo cantando em nossas vidas, quero me deter em um aspecto específico onde percebo que muita gente se prende sem entender o que está acontecendo, ou mesmo sem sequer imaginar que possa haver uma permissão divina para este tipo de crise. Penso ser este um dos cantos do galo que mais se repete nas vidas em crise no meio evangélico: a angústia. 
 
          Há tipos e tipos de angústia, refiro-me àquela para a qual, normalmente, não temos uma explicação. Em que não conseguimos encontrar razão ou motivo para que ela chegasse a alojar-se em nós. 
 
          "Ele nos perguntou: - "O que vocês acham da dor? É algo bom ou ruim?" Todos afirmaram ser ruim, e então ele declarou: - "Se não fosse a dor, você colocaria o braço no fogo e só iria perceber quando só tivesse sobrado do cotovelo para cima!" Todos riram, e foi aí que ele acrescentou: - "A dor, na verdade, é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não está bem e precisa ser tratada".
 
          A partir daí ele discorreu sobre a febre não como algo ruim mas que, à semelhança da dor, faz parte do sistema de defesa de nosso organismo. Que também é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não está bem e precisa ser tratada. Se não fosse a febre, nosso corpo poderia apodrecer de tanta inflamação; mas ela é um sinal de advertência e nos leva a sermos tratados. Semelhantemente, o medo também pode ser visto sob esta ótica; se não fosse o medo, as crianças sairiam colocando o dedo em tudo quanto é buraco de bicho! O medo é um mecanismo de defesa e autopreservação. Há alguns sinais de advertência que Deus colocou em nós, e a angústia é um deles. Ela é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não está bem e precisa ser tratada. 
 
          Foi isto que Pedro sentiu aquela noite que chorou amargamente; não era apenas a decepção de descobrir que não era tudo o que pensava ser, mas um testemunho interior de algo não estava bem e precisava ser resolvido. O galo cantou na vida de Simão Pedro; mas o verdadeiro sinal de advertência não foi aquela ave, e sim a angústia que se instalou em seu interior. Existem diversos tipos de choro, mas penso que o pior de todos seja este que ele experimentou: o choro amargo. Não há alívio neste tipo de choro. Ele nos dilacera por dentro e quanto mais choramos, mais vontade temos de chorar. Mas isto tudo foi muito positivo na vida do apóstolo. Muita gente diz que Pedro foi mudado no dia de Pentecostes, mas creio que sua mudança (ou conversão, como denominou Jesus) começou mesmo foi nesta noite e com este tratamento de Deus em sua alma. 
 
COMPREENDENDO AS NOITES ESCURAS 
 
          Um dos períodos de crise mais difíceis para muitos é o que eu chamo de "noites escuras". Há momentos em que nos sentimos desprovidos de qualquer tipo de iluminação ou direção, perdidos e impotentes. Hoje temos muita vantagem em relação às pessoas que viveram nos períodos bíblicos. Com a energia elétrica e o avanço da tecnologia podemos fazer muita coisa durante à noite.
 
          Mas naquela época as pessoas ficavam muito limitadas pois não podiam fazer nada até que amanhecesse. Assim são nossas crises. Sentimo-nos atados em meio a angústia, a ponto de não podermos fazer nada até que a noite acabe e venha a luz do dia. Não bastasse este sentimento de impotência, vem também o medo. Medo do escuro é das coisas mais comuns entre as crianças. E há aqueles que, mesmo crescendo não conseguem livrar-se deste pavor. A noite escura sugere o incerto, o inesperado, o imprevisível. 
 
          Não é um momento em que explicamos os medos, mas em que temos medo do que nem sabemos! Some-se ao medo o frio e o desconforto. Pedro sentiu isto naquela noite, pois foi aquentar-se ao fogo. É exatamente nestas circunstâncias que o galo cantará em nossas vidas, pois é de noite que ele canta! Estamos vendo na noite o aspecto da escuridão, das trevas. 
 
         Consideremos alguns princípios acerca das trevas: Tem tesouros ocultos; algumas versões traduzem Isaías 45:3 como dizendo: "dar-te-ei os tesouros das trevas". Deus tem tesouros para nós reservados nesses momentos. É o próprio tratamento de nossa alma que nesta hora torna-se bastante vulnerável ao Senhor. Foi criada por Deus. Às vezes imaginamos trevas como algo estritamente maligno, mas Deus criou as trevas (Is.45:7); há um aspecto nelas que não tem nada de negativo. 
 
          Por exemplo, é um momento de descanso que o Senhor deu aos homens; quando estamos vivendo a crise das noites escuras devemos nos conscientizar que não é hora de tentar fazer nada, mas simplesmente descansar no Senhor. As trevas também podem ser vista como um lugar onde a vida está sendo gerada! Gênesis relata que na criação havia trevas sobre a face da terra, e neste ambiente a vida foi gerada; a semente sob o solo é outro exemplo, e a criança no ventre materno é ainda um exemplo da vida sendo gerada em meio às trevas. 
 
          A Bíblia ainda cita uma figura, a vara de Arão que floresceu (Nm.17:1-11). Ela era apenas um pedaço de pau seco, mas floresceu quando foi colocada na tenda da revelação conforme a instrução do Senhor! A vida se manifestou enquanto a vara foi guardada onde não havia nenhuma iluminação, no Santo dos Santos diante da arca do testemunho. 
 
          Se você está enfrentando as noites escuras, anime-se! Reconheça que o agir de Deus em nossas vidas vai muito além da limitação do nosso entendimento. Ele não age só quando achamos ou vemos que age, mas Ele opera sempre. E na maioria das vezes não conseguiremos entender como as coisas estão acontecendo até que tudo termine. Fique firme sabendo que Deus é fiel e tem cuidado de nós! Às vezes, sentimo-nos como se estivéssemos no Polo Norte, no período das noites eternas; parecem não terminar... mas vão terminar e haverá alegria ao amanhecer: 
 
"Porque não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã."
Salmos 30:5. 
 
Esta crise terá o seu fim. E o Sol nascente brilhará sobre os tesouros que ficaram. 
 
DEPOIS DO CANTO DO GALO 
 
          Vemos claramente que um novo Pedro surgiu com o fim da noite escura. O evangelho de João nos mostra isto numa das últimas conversas que Cristo teve com ele. As palavras de Jesus sugerem muita coisa que, numa leitura rápida, acabam passando desapercebidas aos nossos olhos. 
 
"Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros.
Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas. 
 
Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as cousas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. 
 
Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres.
Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro haveria de glorificar a Deus. Depois de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me."
João 21:15-19. 
 
          Porque o Senhor pergunta por três vezes o mesmo assunto, quando na verdade não precisava perguntar nenhuma, visto que após a ressurreição e consequente glorificação, o atributo da onisciência do qual Cristo se despira temporariamente voltara a operar em plenitude na sua vida? Se sabendo todas as coisas ainda assim perguntou, concluímos que o fez não por necessidade da resposta, mas para conduzir o apóstolo a uma sincera auto-avaliação. Penso que o que realmente o Senhor queria era justamente isto; levar Pedro a olhar dentro de si mesmo e reconhecer onde ele estava em relação ao seu amor a Cristo. 
 
          Lembre-se que antes Simão Pedro achava que amava ao Senhor Jesus à ponto de dar sua própria vida por Ele, e de repente veio a descobrir que não era tudo o que pensava ser e nem tampouco amava tanto quanto achava. E depois de sua decepção, Pedro passa a achar que não amava tanto o Senhor; é dentro deste dilema vivido pelo apóstolo, que Cristo o leva a examinar-se a si mesmo e localizar-se espiritualmente onde ele verdadeiramente estava quanto ao seu amor. Vemos isto na maneira como as perguntas lhe foram feitas pelo Senhor e pela promessa que ele lhe fez depois delas. 
 
          Há um jogo de palavras no original grego que não percebemos na tradução do Português; trata-se da palavra "amor". O grego usa palavras diferentes para conotar expressões diferentes do amor; se a referência ao amor é física, sexual, então a palavra grega empregada é "eros"; se a conotação do amor for fraternal, então é "fileo"; e quando trata-se um amor perfeito, intenso, do tipo de Deus, a palavra usada é "ágape"
 
          No português não temos este tipo de diferença; contudo, Jesus usou diferentes tipos de palavras na conversa com Pedro. Na primeira pergunta, Ele diz: - "Tu me amas (ágape)"? E Pedro lhe responde: - "Tu sabes que te amo (Fileo)". Na segunda vez se dá o mesmo, Jesus pergunta se Pedro o ama no nível mais alto de amor – o ágape - e Pedro reconhece que ama, mas nem tanto – seu amor só é fileo. Como não consegue levar Pedro ao seu nível, Jesus desce ao dele e na terceira vez lhe pergunta: - "Tu me amas (fileo)"? E então Pedro diz: - "Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo (Fileo)". 
 
          É como se por mais uma vez ele afirmasse: -"O meu amor não vai além disto e eu não quero me enganar de novo". A Nova Versão Internacional traduziu estas diferentes palavras como amar (ágape) e gostar (fileo). Portanto para as perguntas de Jesus a Pedro: "Você me ama?" as respostas foram: "Senhor, você sabe que eu GOSTO de você".
Mas Jesus termina dizendo que ele viria a glorificar a Deus através de sua morte; ou seja, que chegaria o dia em que ele amaria tanto ao Senhor como achou que amava no começo. E nesta promessa de que Pedro daria sua vida por Ele, Jesus declarou até mesmo que tipo de morte seria; o apóstolo estenderia suas mãos, um tipo de morte comum nos dias do Império romano: a crucificação. E a tradição diz que quando o imperador Nero mandou crucificá-lo (entre 64 a 67 d.c.), Pedro teria dito: - "Não sou digno de morrer como o meu Senhor". E então teria pedido que o crucificassem de cabeça para baixo, o quê, se de fato ocorreu, foi uma demonstração ainda maior de amor a Jesus Cristo. 
 
          Somente quando descobrimos que não somos tudo quanto pensamos e enxergamos nossas fraquezas e vulnerabilidades (na maioria das vezes em meio às crises) é que Deus vai trabalhar profundamente em nós. Este é um tipo de ação de Deus que não vemos com os nossos olhos, é invisível a nós. Quando estamos no meio destas crises, normalmente não entendemos o que está acontecendo e nem tampouco achamos que Deus possa estar agindo, mas Ele sempre estará operando em nós, mesmo quando não vemos! 
 
         Não restrinja o agir de Deus só ao que você vê e compreende, mas permita-lhe o Senhor em sua vida. Ame-o! Confie n'Ele em toda e qualquer circunstância, e saiba que a seu tempo tudo será esclarecido. E você terá sido aperfeiçoado e conduzido a um nível de maior maturidade.
 

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